O mercado vive um novo ciclo de euforia tecnológica — e os sinais de risco estão cada vez mais evidentes
O avanço da inteligência artificial (IA) tornou-se o principal motor de entusiasmo nos mercados globais. Empresas que anunciam projetos baseados nessa tecnologia veem suas ações dispararem, investidores apostam pesado em startups do setor e analistas projetam ganhos extraordinários para os próximos anos.
Entretanto, sob a superfície desse otimismo, cresce a percepção de que uma nova bolha especulativa está sendo inflada — e que, como em episódios passados, a distância entre expectativa e realidade pode cobrar um preço alto.
Um ciclo clássico de euforia
O atual movimento de valorização em torno da IA segue um padrão conhecido: primeiro vem a inovação legítima, depois o excesso de expectativas, e por fim, a fase em que o mercado se convence de que “dessa vez é diferente”.
A combinação de capital abundante, juros relativamente baixos e a crença de que a IA mudará tudo rapidamente alimenta uma dinâmica especulativa semelhante à que antecedeu a bolha das “pontocom”, nos anos 2000.
Gráfico 1 — Crescimento Global dos Investimentos em IA (2020–2025)
(Fonte: Stanford HAI / Gartner, 2025)

Os investimentos privados em IA saltaram de US$ 94 bilhões em 2020 para uma projeção de US$ 1,48 trilhão em 2025, segundo dados consolidados de instituições de pesquisa. Esse crescimento impressionante indica tanto a escala quanto a velocidade da expansão — mas não garante que os fundamentos acompanhem o ritmo.
Expectativa versus resultado
Boa parte dos projetos de IA ainda não entrega retorno financeiro proporcional ao capital investido. A tecnologia é promissora e inevitável, mas seu impacto econômico de curto prazo pode estar sendo superestimado.
Gráfico 2 — Empresas com Retorno Positivo em Projetos de IA (2020–2024)
(Fonte: The Global Institute, 2024)

De acordo com pesquisas recentes, menos de 35% das empresas obtêm retorno positivo em suas iniciativas de IA — uma queda constante nos últimos anos. Esse descompasso entre investimento e entrega real é um dos combustíveis clássicos de uma bolha financeira: quando o preço de um ativo reflete apenas o otimismo sobre o futuro.
O papel do cenário macroeconômico
A expansão recente da IA ocorre em um ambiente de liquidez elevada e apetite por risco, o que tende a amplificar movimentos especulativos. Enquanto o dinheiro é farto e o crédito barato, o mercado aceita valuations cada vez mais altos.
Entretanto, caso o cenário mude — com alta de juros, maior aversão ao risco ou desaceleração global —, a correção pode ser severa. Bancos centrais, como o Bank of England, já alertam para o risco de uma “correção abrupta” caso o otimismo em torno da IA se dissipe rapidamente.
O avanço é real — o preço, nem sempre
A inteligência artificial representa uma transformação genuína. Seu impacto em produtividade, automação e eficiência será profundo e duradouro.
Contudo, o ritmo atual de valorização sugere que o mercado está precificando o futuro antes que ele aconteça. O progresso tecnológico é linear, mas as reações dos mercados são cíclicas: alternam fases de euforia e de correção, até que o valor real se imponha.
A história mostra que inovações revolucionárias costumam vir acompanhadas de bolhas. A internet, as criptomoedas e agora a inteligência artificial seguem o mesmo roteiro: uma ideia poderosa, uma corrida de capital e, em seguida, uma inevitável correção.
O momento atual é de entusiasmo legítimo, mas também de excesso de otimismo. O mercado parece apostar que a IA resolverá todos os problemas econômicos e justificará qualquer preço.
No entanto, quando as expectativas crescem mais rápido do que os resultados, o desfecho tende a ser previsível.
A bolha da IA pode não ter estourado ainda — mas o ar dentro dela está, sem dúvida, se acumulando.
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