O Irã no Limiar do Colapso

– A Crise que Ameaça a Teocracia em 2026

TEERÃ, 08 de janeiro de 2026 — O Irã atravessa o seu “momento Muro de Berlim”. O que começou como uma revolta comercial em Teerã transformou-se, em menos de duas semanas, em uma insurreição nacional que desafia a permanência do Aiatolá Ali Khamenei no poder. Com cidades ocupadas, um apagão total de comunicações e o exército em estado de alerta, 2026 marca o capítulo mais incerto da República Islâmica desde 1979.

 O Estopim: A Revolta do Bazar

Diferente de 2022, onde o estopim foi social, a crise de 2026 explodiu em 28 de dezembro de 2025. O gatilho foi o anúncio de uma nova desvalorização forçada do Rial e o colapso do poder de compra no Grande Bazar de Teerã.

Comerciantes e lojistas, historicamente o pilar econômico do país, fecharam as portas e saíram às ruas após não conseguirem mais precificar mercadorias básicas. Em questão de horas, o movimento foi abraçado por estudantes universitários e trabalhadores das refinarias, transformando uma queixa econômica em um grito político pela queda do regime.

 Escala e Dimensão dos Protestos

A escala deste levante é sem precedentes. Segundo organizações de direitos humanos e redes sociais (antes do apagão):

  • Abrangência: Manifestações ativas em todas as 31 províncias do país e em mais de 180 cidades.

  • Violência e Repressão: Até hoje, 10 de janeiro, estima-se que pelo menos 65 pessoas morreram, incluindo oito crianças. Mais de 2.300 manifestantes foram presos.

  • Apagão Digital: O regime cortou a internet e os serviços de telefonia há mais de 48 horas para impedir a saída de imagens da repressão e a organização de novos atos.

 O Colapso da Economia: Números de uma Crise Sistêmica

A economia iraniana não está apenas em recessão; ela está em estado de paralisia total.

  • O Rial em Frangalhos: A moeda atingiu a cotação histórica de 1,45 milhão por dólar. O valor do trabalho do iraniano médio desapareceu.

  • Inflação Descontrolada: A inflação oficial é de 42,2%, mas o custo de vida real para alimentação e medicamentos subiu 70%.

  • Causas do Desastre: O cenário é o resultado da má gestão crônica, somada aos danos na infraestrutura após o conflito militar de junho de 2025 com Israel e a reativação das sanções da ONU (snapback) em setembro, que bloqueou as últimas rotas de exportação de petróleo.

 O Papel de Cada Lado: O Xadrez do Poder

O Regime (Khamenei e a Guarda Revolucionária)

O Líder Supremo, Ali Khamenei, aos 86 anos, mantém a narrativa de que o país é alvo de um complô estrangeiro.

  • Estratégia: Uso da Guarda Revolucionária (IRGC) e da milícia Basij para reprimir os centros urbanos. Há relatos de que o regime está deslocando unidades de elite de fronteiras para Teerã.

  • Divisão Interna: O presidente Masoud Pezeshkian admitiu publicamente que “a culpa é do governo”, revelando uma rachadura inédita na cúpula do poder.

A Oposição (Reza Pahlavi e a Revolução Nacional)

O príncipe herdeiro Reza Pahlavi, operando do exílio, assumiu o papel de líder simbólico.

  • Convocação de Greve: Pahlavi convocou uma greve geral para este sábado (10/01), focada em paralisar transportes e o setor de energia para “colocar de joelhos o aparato repressivo”.

  • O Objetivo: O movimento mudou de tática: o objetivo não é mais apenas protestar, mas “tomar e manter os centros das cidades”.

O Fator Trump (Estados Unidos)

A administração de Donald Trump adotou uma “doutrina de pressão máxima física”.

  • Ameaça Militar: Trump avisou que, se o regime “começar a atirar massivamente”, os EUA atingirão alvos estratégicos iranianos. Isso criou um dilema para os generais iranianos: obedecer às ordens de massacre de Khamenei pode atrair mísseis americanos.

O Dilema de Ferro: A Encruzilhada dos Generais

Enquanto as chamas dos protestos iluminam as noites de Teerã, o alto comando militar iraniano enfrenta o que os estrategistas chamam de “Dilema da Lealdade Suicida”. Os generais estão presos entre três caminhos, cada um com um custo potencialmente fatal:

 O Caminho da Repressão Total (O Modelo Sírio)

  • A Escolha: Cumprir as ordens diretas de Khamenei e usar fogo real, tanques e aviação para esmagar as multidões, como Bashar al-Assad fez na Síria.

  • O Risco: Isso provocaria uma intervenção direta de Donald Trump, que já posicionou porta-aviões no Golfo Pérsico. Além disso, as fileiras de soldados recrutados (jovens de 18 a 20 anos) podem se amotinar ao serem ordenados a atirar contra seus próprios pais e irmãos nas ruas.

O Caminho da Neutralidade (O Modelo Egípcio)

  • A Escolha: Retirar as tropas das ruas, declarar-se “defensores do povo” e forçar a renúncia de Khamenei para preservar a instituição militar.

  • O Risco: A Guarda Revolucionária (IRGC) possui seu próprio exército paralelo. Se o Exército Regular (Artesh) recuar, pode eclodir uma guerra civil interna entre as duas forças armadas do país, transformando as cidades em campos de batalha fratricidas.

O Caminho da Dissidência (O Salto no Escuro)

  • A Escolha: Prender a cúpula teocrática em um golpe de Estado preventivo e negociar com o Ocidente a suspensão das sanções em troca de uma transição para um governo secular ou militar.

  • O Risco: Ser rotulado de traidor pela “velha guarda” e ser executado antes que o golpe se consolide. Além disso, não há garantias de que a população enfurecida aceitaria uma junta militar no lugar dos clérigos.


A frase que ecoa nos quartéis:  “Se atirarmos no povo, seremos enforcados por Trump e pela história. Se não atirarmos, seremos fuzilados pelo Aiatolá amanhã de manhã.”


Por que este dilema é decisivo agora?

Diferente de 2022, em 2026 os generais sabem que a economia acabou. Eles não têm mais dinheiro para pagar os soldos ou manter a lealdade das tropas de elite. Um general que não consegue alimentar seus soldados perde o comando — e é exatamente isso que a inflação de Trump e o fechamento do Bazar causaram.

O Ponto de Ruptura: Khamenei Pode Cair?

A sobrevivência do regime depende agora de um único pilar: a lealdade das forças de segurança.

Atualmente, a Guarda Revolucionária (IRGC) continua leal, mas há sinais de tensão no Exército regular (Artesh), que historicamente é mais próximo da população. Se houver deserções em massa ou se o Exército decidir proteger os manifestantes, o sistema teocrático poderá colapsar nas próximas semanas.

O Irã de 2026 não é mais o mesmo. A fome, a repressão e o isolamento transformaram a República Islâmica em um barril de pólvora que já começou a explodir.

O Irã de 2026 não pede mais pão; pede um novo país.

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