A engenharia da sucessão na Coreia do Norte

 A engenharia da sucessão: o movimento político por trás da possível herdeira de Kim Jong-un

A presença cada vez mais frequente da filha de Kim Jong-un em eventos oficiais deixou de ser apenas uma curiosidade diplomática. O que se desenha, segundo avaliações recentes de inteligência sul-coreana e análises especializadas, é um movimento político calculado dentro da arquitetura de poder da Coreia do Norte.

A questão central já não é apenas quem é a jovem que aparece ao lado do líder, mas qual função estratégica ela cumpre na reorganização interna do regime.

🏛 A política da sucessão na Coreia do Norte

A Coreia do Norte não é apenas um Estado autoritário. É um sistema híbrido que combina:

Partido único (Partido dos Trabalhadores da Coreia),

Estrutura militar centralizada,

Culto dinástico à família Kim,

Doutrina ideológica (Juche e Songun).

A sucessão, nesse contexto, não é simplesmente hereditária — ela é institucionalizada dentro da narrativa ideológica do Estado.

Historicamente:

Kim Jong-il foi apresentado gradualmente como herdeiro ainda nos anos 1970.

Kim Jong-un foi promovido a general de quatro estrelas e membro da Comissão Militar antes da morte do pai, consolidando sua legitimidade política.

Ou seja, o regime trabalha com preparação antecipada e construção simbólica de autoridade.

🔎 O que muda com a filha de Kim?

A possível preparação de Kim Ju-ae (nome amplamente utilizado pela imprensa internacional) traz três mudanças políticas relevantes:

1️⃣ Antecipação estratégica

Kim Jong-un tem pouco mais de 40 anos. Não há, oficialmente, sinais de crise de saúde iminente. Ainda assim, a exposição pública da filha sugere:

Planejamento de longo prazo,

Tentativa de estabilizar a elite do Partido,

Mensagem de continuidade interna.

Em regimes personalistas, a maior vulnerabilidade não é a oposição popular — é a disputa interna entre elites militares e partidárias. Ao apresentar uma sucessora desde já, Kim reduz a margem para disputas futuras.

2️⃣ Consolidação da legitimidade dinástica

O regime norte-coreano construiu sua narrativa em torno do “sangue revolucionário do Monte Paektu” — símbolo mitológico ligado à família Kim.

A inclusão da filha em eventos militares estratégicos (como testes de mísseis intercontinentais) não é aleatória. É um recado claro:

A linhagem que controla o programa nuclear continuará no poder.

Isso tem peso político interno e externo.

Internamente:

Reforça a fidelidade das Forças Armadas.

Enquadra a sucessão como natural e inevitável.

Externamente:

Indica que a política nuclear não sofrerá ruptura.

3️⃣ Uma possível transição feminina no topo

A Coreia do Norte é estruturalmente patriarcal. Porém, o regime já demonstrou flexibilidade pragmática quando necessário.

Kim Yo-jong, irmã de Kim Jong-un, ocupa papel relevante na máquina política e diplomática. Isso demonstra que o gênero, embora culturalmente relevante, não é uma barreira intransponível dentro da elite do regime.

Caso a sucessão feminina se confirme, não será uma ruptura ideológica — será uma adaptação estratégica para preservar o núcleo dinástico.

🧠 O cálculo político por trás do timing

A análise mais interessante não é se ela será sucessora, mas por que o regime começou a sinalizar isso agora.

Alguns fatores possíveis:

Reforço da estabilidade interna em meio a pressões econômicas;

Fortalecimento da narrativa de continuidade em um cenário internacional mais volátil;

Preparação institucional antes do próximo Congresso do Partido;

Neutralização preventiva de qualquer ala militar que pudesse aspirar poder.

Em regimes fechados, estabilidade é construída pela previsibilidade da sucessão.

⚖ O papel das elites militares

A sucessão na Coreia do Norte depende menos da população e mais de três pilares:

Partido dos Trabalhadores

Comissão Militar Central

Departamento de Organização e Orientação

Qualquer herdeiro precisa ser aceito por essa estrutura.

A presença da filha em eventos militares — e não apenas civis — é particularmente significativa. Isso sinaliza tentativa de construir legitimidade junto às Forças Armadas, o verdadeiro sustentáculo do regime.

🌏 Implicações geopolíticas

A sucessão afeta diretamente:

China (principal aliado e parceiro econômico),

Rússia (aproximação estratégica recente),

Coreia do Sul e Estados Unidos (equilíbrio militar na península).

Uma sucessão planejada e gradual transmite estabilidade — algo que Pequim, especialmente, valoriza profundamente.

❗ O que ainda não existe

Apesar das avaliações de inteligência:

Não há anúncio formal de sucessão.

Não há título oficial atribuído à filha.

Não há confirmação de papel institucional dentro do Partido.

Tudo até agora é sinalização política.

E no caso da Coreia do Norte, sinalização é parte do processo de construção de poder.

📌 O que está realmente em jogo

Mais do que a ascensão de uma adolescente, o que está sendo observado é:

A tentativa de perpetuar o modelo dinástico como mecanismo de estabilidade do regime nuclear norte-coreano.

Se confirmada, a sucessão representaria:

A quarta geração da família Kim no poder,

A consolidação definitiva do modelo dinástico como estrutura permanente do Estado,

A continuidade da política estratégica nuclear.

📝 Conclusão

A suposta inclusão da filha de Kim Jong-un na política não deve ser analisada como curiosidade familiar ou gesto simbólico. Trata-se de uma movimentação política sofisticada dentro de um dos regimes mais fechados do mundo.

Ainda não há confirmação oficial.

Mas, na Coreia do Norte, a política raramente é improvisada.

Se o padrão histórico for mantido, a construção pública da sucessão antecede em anos a formalização do poder.

E isso, por si só, já é um sinal político relevante.

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