O Ressurgimento da Doutrina Monroe e o Choque no Comércio Global
A geopolítica do Hemisfério Ocidental está passando por uma metamorfose que remete ao início do século XX. O que antes era estudado apenas em livros de história como a Doutrina Monroe e a política do Big Stick (Grande Porrete), tornou-se agora a bússola estratégica da Casa Branca sob a administração de Donald Trump em 2025/2026. Mas o que esses conceitos significam na prática e por que eles estão fragmentando a economia global?
As Raízes: Monroe e Roosevelt
Para entender o presente, precisamos decifrar o código genético da política externa americana:
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A Doutrina Monroe (1823): Criada pelo presidente James Monroe, estabeleceu que qualquer intervenção de potências europeias nas Américas seria vista como um ato de agressão contra os EUA. O lema era “A América para os americanos”.
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O Corolário Roosevelt e o Big Stick (1904): Theodore Roosevelt elevou o tom. Com a frase “Fale suavemente e carregue um grande porrete”, ele justificou a intervenção direta dos EUA em países latino-americanos para “organizar” suas economias e garantir que pagassem dívidas externas, evitando a entrada de potências rivais.
O Retorno Triunfal: O que Donald Trump pretende?
Diferente de administrações anteriores que tentaram uma abordagem de “parceria”, Trump deixou claro que a Doutrina Monroe é a base de seu novo mandato. O objetivo central não é mais barrar impérios europeus, mas sim expulsar a influência econômica e tecnológica da China e da Rússia na América Latina.
Os planos de Trump incluem:
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Recuperação de Infraestrutura Crítica: O governo americano pretende pressionar países da região para que cancelem contratos de portos, ferrovias e redes 5G com empresas chinesas (como a Huawei), oferecendo em troca linhas de crédito americanas.
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Controle de Recursos Energéticos: A política de Trump foca na segurança energética. Isso explica a postura agressiva em relação à Venezuela e o apoio a governos que facilitam a exploração de petróleo e gás por empresas estadunidenses.
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O “Nearshoring” Compulsório: Incentivar que fábricas que saíram da China se instalem no México ou no Caribe, sob a condição de que utilizem insumos americanos, fortalecendo um bloco econômico regional fechado.
Impactos no Comércio Mundial: A Era do Protecionismo Regional
A reativação do “Big Stick” no século XXI não é feita apenas com canhoneiras, mas com tarifas, sanções e acordos bilaterais. Isso impacta o comércio mundial de quatro formas principais:
A. Fragmentação em Blocos
O mundo caminha para uma “Bipolaridade Comercial”. De um lado, o bloco liderado pelos EUA (Américas); do outro, a Eurásia liderada pela China. Isso aumenta o custo de produção, já que a eficiência global dá lugar à “segurança nacional”.
B. A Guerra pelos Minerais Críticos
A Doutrina Monroe 2.0 foca no Triângulo do Lítio (Argentina, Chile e Bolívia). Como o lítio é o “novo petróleo” para baterias, os EUA buscam garantir que esses recursos não alimentem a indústria de carros elétricos chinesa, o que pode causar volatilidade nos preços globais de tecnologia.
C. Pressão sobre o Canal do Panamá e Rotas Marítimas
A logística global sofre quando os EUA impõem vigilância rigorosa sobre quem transita em “suas águas”. Navios com bandeiras de países sancionados ou transportando carga russa/chinesa podem enfrentar burocracias severas ou bloqueios, encarecendo o frete marítimo.
D. Substituição do Multilateralismo
Trump prefere acordos “um a um” em vez de fóruns como a OMC ou o Mercosul. Isso enfraquece as regras globais de comércio e dá aos EUA um poder de barganha desproporcional sobre economias menores na América Latina.
O Desafio para o Brasil e Vizinhos
Para os países latino-americanos, o ressurgimento da Doutrina Monroe é uma faca de dois gumes. Por um lado, há a promessa de investimentos americanos maciços via nearshoring. Por outro, há a perda da soberania comercial e o risco de retaliação da China, que hoje é o maior parceiro comercial de muitos desses países.
O “Grande Porrete” de Trump em 2026 é econômico, digital e energético. Em um mundo onde a neutralidade está se tornando um luxo caro, a América Latina volta a ser o tabuleiro principal da disputa entre as superpotências.





