DREX

O ‘Real Digital’ que o Banco Central agora considera inviável

O Brasil foi anunciado como um dos pioneiros em moedas digitais de banco central (CBDC) com o lançamento do projeto DREX — sigla para “Digital ”. A proposta era ambiciosa: criar uma versão digital do real que convivesse com o dinheiro físico, aproveitando tecnologia de ponta para dar maior fluidez, liquidez, inovação em pagamentos e tokenização de ativos.
Entretanto, na gestão de Gabriel Galípolo à frente do Banco Central, o discurso mudou: segundo ele, a tecnologia usada no DREX “se mostrou inviável”. 
Este artigo analisa os motivos desse recuo, os impactos potenciais no ambiente de pagamento e os riscos de que a iniciativa – se for retomada – já esteja atrasada ou desajustada.

O que era o DREX e por que era considerado estratégico

Quando anunciado, o DREX foi posicionado como uma moeda digital do Banco Central com as seguintes características:

  • Seria emitida pelo Banco Central, tendo lastro e equivalência ao real físico ou depósitos bancários.

  • Utilizaria uma infraestrutura de registro distribuído (blockchain ou similar) para permitir pagamentos, liquidações entre instituições, tokenização de ativos e interoperabilidade com os trilhos tradicionais.

  • Era vista como um passo de modernização da infraestrutura financeira nacional: após o sucesso do PIX, o Brasil poderia novamente ocupar posição de vanguarda.

Em suma, o DREX representava um vetor de inovação para o sistema financeiro brasileiro, com promessas de eficiência, segurança e agenda de futuro digital.

O recuo de Galípolo e os motivos apontados

Em novembro de 2025, Gabriel Galípolo anunciou que o projeto DREX — como concebido — não continuará de forma imediata porque a “tecnologia se mostrou inviável”. 
Os argumentos principais apontados foram:

  1. Tecnologia não se provou viável
    Galípolo afirmou que, “após quatro anos, a tecnologia não se revelou viável”.
    Esse diagnóstico aponta para dificuldades práticas de implementação: desempenho, escalabilidade, assuntos de privacidade, ou compatibilidade com sistemas existentes.

  2. Existem outras formas de alcançar o mesmo objetivo
    Ele observou que “existem hoje outras maneiras de atingir o que a gente quer, que é ter essa rede, com ativos tokenizados com certificação que vai dar segurança e liquidez de maneira mais simples por meio de outras tecnologias”. 
    Em outras palavras: o DREX, tal qual pensado, perdeu prioridade porque soluções mais simples ou maduras podem cumprir a função desejada.

  3. Mudança de rumo e prazo indefinido
    O Banco Central indicou que a infraestrutura que substituirá o DREX ainda não tem data de lançamento definida. 
    Também foi noticiado que a plataforma de blockchain inicialmente adotada teve seu uso interrompido.

Esse conjunto de adversidades faz com que o projeto — pelo menos na forma original — seja considerado inviável ou adiado.

Por que considerar inviável?

E quais os principais pontos de atenção?

A declaração de inviabilidade por parte do Banco Central abre a porta para uma análise crítica de onde o DREX poderia ter falhado ou se encontrou com obstáculos relevantes. Alguns pontos de atenção:

A) Complexidade tecnológica e interoperabilidade

Um dos grandes desafios em CBDCs é criar uma rede digital que suporte milhares ou milhões de transações, em tempo real ou quase real, com segurança, privacidade e conexão com bancos, fintechs, e sistemas de pagamentos tradicionais. A escolha original de usar infraestrutura de registro distribuído (blockchain) poderia ter gerado gargalos ou custos elevados.
Se a tecnologia “não se revelou viável”, isso possivelmente indica que os requisitos de desempenho, interoperabilidade e governança foram subestimados.

B) Privacidade e regulação

A publicação do projeto indica que o DREX, conforme testado, enfrentou “problemas de privacidade” e “registro distribuído desligado”. 
Moedas digitais de banco central enfrentam o dilema: oferecer rastreabilidade para evitar fraudes, lavagem, evasão, e ao mesmo tempo preservar privacidade individual. Um erro ou falha de avaliação nesse âmbito pode comprometer a adoção ou confiança.

C) Mudança de prioridades e custo-benefício

Se o Banco Central afiança que há “outras maneiras de atingir o que queremos”, fica implícito que o custo ou complexidade do DREX ultrapassou o benefício marginal esperado.
Em um ambiente de recursos limitados (tempo, orçamento, atenção regulatória) talvez o projeto original não entregasse o “sobretudo” prometido frente a alternativas mais simples (por exemplo tokenização de ativos via bancos ou fintechs, uso de contas digitais já existentes, etc).

D) Timing e competitividade internacional

Ao anunciar uma CBDC pioneira o Brasil buscava vantagem comparativa. Contudo, o recuo agora sugere que o país ficará em compasso de espera, enquanto outros mercados avançam. A demora pode gerar perda de liderança, adoção mais lenta e risco de ficar atrás em infraestrutura digital.

Implicações para o mercado financeiro e para o usuário

Para instituições financeiras e fintechs

  • Incerteza sobre o ambiente regulatório e de infraestrutura para moeda digital pode reduzir o apetite por investimentos em tokenização ou novos modelos de pagamento.

  • Bancos e fintechs que já vinham se preparando para o DREX terão de reavaliar planos, talvez adaptar-se a uma nova arquitetura ou cronograma.

  • A mudança de tecnologia ou o adiamento implicam em custos adicionais de transição.

Para o usuário comum

  • A promessa de novos meios de pagamento mais rápidos e baratos pode demorar mais do que se esperava.

  • A comunicação sobre “moeda digital” poderia ter criado expectativas elevadas — agora adiadas.

  • Em contrapartida, o fato de o Banco Central admitir limitações tecnológicas pode ser visto como postura realista, evitando lançamento prematuro de algo que funcione mal.

Para o Brasil como ecossistema de inovação

  • O episódio pode gerar alguma desconfiança quanto à iniciativa governamental de inovação financeira.

  • Por outro lado, pode sinalizar maturidade regulatória: melhor adiar um projeto que falhou nos testes do que lançar uma solução falha.

Considerações finais

O projeto DREX, que chegou a simbolizar a ambição brasileira de liderar a nova geração de pagamentos digitais, passa agora por um revés significativo. A declaração de Gabriel Galípolo de que “a tecnologia se mostrou inviável” (pelo menos da forma concebida) marca uma alteração clara de direção.
Essa mudança merece atenção porque expõe os riscos de que mesmo projetos de grande visibilidade e escala enfrentem barreiras consideráveis — tecnológicas, regulatórias, de mercado — que não eram totalmente antecipadas.

Para o leitor do AllocationBR que busca entender o cenário de infraestrutura financeira digital no Brasil, o episódio leva a dois ensinamentos importantes:

  1. Inovar requer mais do que vontade política: exige execução, alinhamento de tecnologia, regulação e mercado.

  2. Mesmo quando o anúncio é grandioso, a implantação pode levar anos ou recuar — e isso não necessariamente é fracasso: pode também ser prudência.

O que está agora em jogo é: qual será a nova arquitetura que substituirá o DREX como proposta de moeda digital do Banco Central? Quando ela será implementada? E como o Brasil reagirá à perda momentânea de liderança neste campo?
Fica a expectativa — e o alerta: no mundo dos sistemas monetários digitais, promessa e realização nem sempre caminham juntas.

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